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Entrevista com Naolí Vinaver, parteira tradicional e profissional mexicana

“Nós, mulheres, estamos desenhadas para engravidar e parir sem nenhuma dificuldade”



Para Naolí Vinaver, parteira tradicional e profissional mexicana, a maneira como as mulheres estão parindo seus filhos atualmente reflete um tipo de sociedade consumista e capitalista em que a visão da pressa e a rapidez prevalecem sobre a qualidade da vida como experiência primordial

Por: Graziela Wolfart

O movimento pela humanização do parto é definido pela parteira mexicana Naolí Vinaver como “a união e visão humana, tanto intelectual como técnica e profissional, de pessoas de diversas áreas que se importam com a qualidade da atenção recebida pelas mulheres, bebês e famílias durante o processo de parto e nascimento”. Dona de vasta experiência em contribuir para que bebês nasçam de parto natural, Naolí afirma que “na medida em que as mulheres foram levadas para os hospitais e os seguimentos das suas gravidezes e partos começaram a ser acompanhados por homens médicos (na sua vasta maioria), elas foram perdendo a dignidade, o seu direito à integridade física e emocional e, com isso, a sua autonomia de parideiras capazes”. E conclui, em meio a suas respostas enviadas por e-mail à IHU On-Line: “o problema não são as mulheres ‘imperfeitas’ que ‘não sabem parir mais’, mas a cultura do parto que esqueceu da mulher no processo desenfreado por adquirir as mais altas tecnologias sem virar a cabeça para ver que elas não são necessárias na maioria dos casos”.

Naolí Vinaver Lopez é uma parteira mexicana que combina a prática do parto tradicional com um profundo interesse e respeito pela psicologia e a fisiologia do parto. Desde 1987 ela atendeu por volta de 1000 partos domiciliares em sua região (Xalapa, Veracruz, México), além de participar como conferencista em congressos sobre parto em mais de 30 países. Naolí teve três filhos em partos domiciliares acompanhada de sua família, o último dando origem ao vídeo “Dia de Nascimento”.

Confira a entrevista. 

IHU On-Line – O que caracteriza o movimento pela humanização do parto e do nascimento?

Naolí Vinaver – O movimento se caracteriza pela união e visão humana, tanto intelectual como técnica e profissional, de pessoas de diversas áreas que se importam com a qualidade da atenção recebida pelas mulheres, bebês e famílias durante o processo de parto e nascimento. O movimento se importa profundamente com a experiência pessoal, tanto física como emocional das pessoas envolvidas no parto, baseando-se em dados científicos e psicoemocionais que oferecem evidências fortes sobre os efeitos em curto e longo prazo dessas vivências nas pessoas.

IHU On-Line – O que tem motivado a ebulição deste movimento pelo mundo atualmente?

Naolí Vinaver – A motivação em verdade não é nova, o que é novo é a capacidade atual de se comunicar com o crescimento e expansão dos meios de comunicação que possibilita às pessoas a comunicação umas com as outras, dando como resultado uma crescente consciência das similitudes nas experiências vivenciadas. A partir de inúmeros congressos internacionais, de contato entre pessoas de países diversos, de artigos publicados, pesquisas e expressões individuais e de grupo, o movimento tem se desenvolvido com muita força e lucidez, dando frutos e avanços exemplares. Não sem que ainda fique o maior trecho por ser conquistado e as estratégias e mudanças ainda por serem efetuadas.

IHU On-Line – Como o Brasil e a América Latina se posicionam neste contexto?

Naolí Vinaver – Acho que o Brasil e a América Latina não podem ser incluídos na mesma frase. O Brasil é um país que se diferencia dos outros países da América Latina em que as pessoas civis se sentem parte dos órgãos que tomam decisões, quer dizer, que o vínculo e a humanidade que têm as pessoas civis e as pessoas que já trabalham dentro da Secretaria de Saúde, para citar um exemplo, é de uma parceria e comunicação que não se vê em outros países da América Latina, onde geralmente as instituições se caracterizam por uma prepotência muito marcada, que desvincula os seus representantes dos cidadãos comuns. Mesmo assim, tanto o Brasil como a maioria dos países da América Latina têm em comum um índice elevadíssimo de cesáreas e inúmeras intervenções gineco-obstétricas, evidentemente desnecessárias, o que resulta que a mulher nesses países desconheça suas capacidades para parir natural e espontaneamente, e que quem deseja fazê-lo precise lutar com muita veemência e intensidade, como um salmão que nada contra a correnteza. Nesses países, nós que lutamos por um parto mais humano e cálido precisamos uns dos outros para conseguir ter uma voz que seja ouvida. Paradoxalmente, é também por causa de tantas e tantas formas de violência e agressão obstétrica vividas por tantas mulheres e bebês que o movimento encontra-se fortalecido.

IHU On-Line – O que a senhora destaca em relação ao respeito e à integridade física e emocional da mãe, do bebê e da família durante um nascimento?

Naolí Vinaver – O merecimento a parir com respeito à fisiologia e à intimidade da mulher e do bebê nunca deveria ter mudado das épocas em que as mulheres sempre pariam em casa, acompanhadas por parteiras (mulheres com experiência nas artes do bem-parir). Mesmo que se compreenda que, com a evolução da ciência, as mulheres foram levadas das suas casas para parir nos hospitais, o parto não deveria ter deixado de ser considerado um processo natural de vida e de saúde, só precisando em muitos poucos casos da ajuda justa e precisa da medicina “moderna”. Na medida em que as mulheres foram levadas para os hospitais e os seguimentos das suas gravidezes e partos começaram a ser acompanhados por homens médicos (na sua vasta maioria), elas foram perdendo a dignidade, o seu direito à integridade física e emocional e, com isso, a sua autonomia de parideiras capazes.

IHU On-Line – Como a senhora define a mulher-mãe enquanto autoridade em relação à gravidez e ao bebê que gera em seu ventre?

Naolí Vinaver – Nós, mulheres, estamos desenhadas para engravidar e parir sem nenhuma dificuldade. Como tal, somos autoridades nessa experiência e processo de parir e só precisamos de apoio amoroso e paciente para acompanhar o processo. São as parteiras, desde a época da Antiguidade, que acompanhavam as mulheres nesse momento, caso precisassem de ajuda em algum trecho do processo. Geralmente uma mulher não precisa de ajuda, mas sim de respeito, de intimidade e paz para parir de forma espontânea. Quando esses elementos são tirados da mulher, ela começa a encarar algumas dificuldades que têm a ver mais com o entorno e o aculturamento do parto do que com a sua fisiologia. O problema não são as mulheres “imperfeitas” que “não sabem parir mais”, mas a cultura do parto que esqueceu da mulher no processo desenfreado por adquirir as mais altas tecnologias sem virar a cabeça para ver que elas não são necessárias na maioria dos casos.

IHU On-Line – A maneira como as mulheres estão parindo seus filhos atualmente reflete que tipo de sociedade e de cultura?

Naolí Vinaver – A maneira como as mulheres estão parindo seus filhos atualmente reflete um tipo de sociedade consumista e capitalista em que a visão da pressa e a rapidez prevalecem sobre a qualidade da vida como experiência primordial. Uma sociedade que não pergunta nem escuta às suas mulheres deixando-as escolher e dirigir as suas experiências sexuais, de gravidez e de parto, baseando-se nas suas intuições, no instinto primordial como fêmeas parideiras, e com base em informações fidedignas e legítimas, não é uma sociedade avançada. O dia em que a mulher ocupar um lugar precioso como uma doadora de vida poderosa e cheia de sabedoria, dentro de todos os âmbitos – o psicossocial, o econômico e cultural, assim como o político –, essa cultura vai virar um exemplo para a humanidade inteira.

IHU On-Line – O que caracteriza o ofício da parteira e qual a importância que ela tem para a mãe e a família do bebê que chega por suas mãos?

Naolí Vinaver – A parteira é uma companhia experta e solidária para a mulher no seu caminhar pelas paisagens e experiências únicas da gravidez, do parto, do nascimento e na fase de pós-parto dos primeiros anos de vida. A importância dela não pode nem ser calculada. Basta perguntar para qualquer mulher se ela gostaria de receber carinho experiente e segurança durante as suas experiências de gestar, para entender a importância da parteira nas sociedades. E aquelas sociedades que têm perdido o fio da parteira e nas quais as mulheres não lembram nem como era quando outra mulher era a sua acompanhante experiente demonstram só uma triste falta de cultura e bom-senso.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar mais algum comentário sobre o tema?

Naolí Vinaver – Só quero lembrar às pessoas “modernas” que se consideram frutos da alta tecnologia que, inclusive neste minuto em que se lê esta entrevista, a vasta maioria dos seres humanos que estão nascendo chega nas mãos quentinhas e carinhosas das parteiras nos mais diversos cantos do mundo. É bem assim. A maioria dos seres humanos do século, ano, mês e dia atuais ainda nascem fora do hospital nas mãos das parteiras, e a humanidade prolifera de forma saudável. Acho que o ser humano moderno precisa de um toque de humildade e de mais amor para conseguir continuar a nossa caminhada por esta terra. Eu sou uma das muitas mães do mundo o suficientemente afortunadas por ter parido os meus três filhos na minha casa, na companhia amorosa da minha família, e de uma parteira, e isso me dá a maior sensação de felicidade.

Data: 02.07.2012
Fonte: ihuonline

Entrevista com Ana Cristina Duarte

Ela atende o telefone e logo sai acelerando seu "partomóvel" pela cidade de São Paulo: um bebê está para nascer e a parteira urbana, Ana Cristina Duarte vai acompanhar. Veja como é a vida da profissional que já ajudou centenas de mulheres a acreditarem em sua capacidade de parir e recebeu mais de 200 bebês


Foto: Beatriz Takata

Como você se tornou uma parteira urbana? 
Foi uma trajetória natural. Após o parto da minha filha mais velha, hoje com 15 anos, que foi uma indicação incorreta de cesárea e me deixou muito revoltada, resolvi aprender sobre o assunto. Me tornei doula e comecei um trabalho intenso de ativismo para proteger mulheres contra o sistema obstétrico hospitalar e suas cesáreas desnecessárias e partos desrespeitosos. Acontece que, como doula, eu ajudava a mulher durante a gestação e o trabalho de parto, mas no clímax, ou seja, na hora de pegar o bebê, quem entrava era o médico. Sentia uma vontade tão grande de fazer parte do momento mais especial, de pegar os bebês, que resolvi virar parteira. A filosofia de parteira não combina muito com o modelo hospitalar, ela é baseada no parto como um evento fisiológico e natural que pode perfeitamente acontecer em casa. 

A palavra parteira remete à mulher de antigamente, aquela do campo, o que diferencia a parteira moderna desta figura antiga? 
Antigamente era assim por falta de opção, não era propriamente uma escolha. A mulher urbana que opta pelo parto domiciliar com obstetriz tem um leque de opções, como parto hospitalar e casa de parto, e escolhe chamar a parteira em sua casa. A diferença na atuação da parteira urbana para a parteira tradicional, aquela da roça, é, principalmente, a profissionalização do atendimento. A quantidade que temos de materiais e utensílios, o aumento da segurança no parto (com monitoramento e acompanhamento desde o pré-natal) o uso de respaldos científicos e acesso à evidências, enfim, um parto mais legal em todos os aspectos, inclusive sob o ponto de vista de legislação, e que oferece à mulher tudo que lhe é de direito. Em comum com a parteira tradicional, penso que ambas estão profundamente conectadas com o momento do nascimento. O veículo que liga parteira e mulher é a empatia. Por isso, estabeleço uma forte ligação com a família e tenho sempre uma preocupação em manter o clima tranquilo, o ambiente respeitoso, deixar que tudo aconteça em seu próprio tempo. 

E a mulher que escolhe o parto com parteira de hoje, em comparação com a de décadas atrás, mudou? 
Completamente! Ela escolhe parir com parteira pois já está informada, tomou posse do seu direito e passou a crer em sua capacidade de parir e em seu corpo. Ela sabe que o nascimento acontecerá por ela, através dela. A gestante vai ficando tão tranquila em relação ao processo que não vê mais cabimento em ir para o hospital. Ela quer ser protagonista do parto e escolhe este caminho porque o entende como o melhor meio para vivenciar plenamente a experiência. 

Por que parir é uma experiência importante? Modifica a mulher? Em que sentido? 
A experiência do parto modifica a mulher porque permite que ela chegue a lugares dentro dela nunca antes acessados. Ela conseguirá visitar coisas íntimas do seu ser – chame de alma, mente, espírito, coração, enfim – este encontro representa uma mudança, um avanço para a vida inteira. Quando parimos, ampliamos nosso limite e, isso por si só, já é um avanço, uma expansão de consciência. Parir é uma oportunidade maravilhosa de experimentar uma sensação única, de conhecer melhor seu corpo, sentir sua plena capacidade, e isso faz com que a mulher ganhe confiança para a desafiadora jornada que está iniciando de se tornar mãe. Ou seja, a mulher que pariu - em comparação à mulher que foi operada para ter seu filho - normalmente inicia a maternidade com auto-estima e confiança. Acredito que tornar-se mãe é um processo profundo e quanto mais integralmente a mulher puder vivenciar isso, quanto mais responsável se sentir pelo evento, mais instrumentos adquire para o exercício da maternidade. É interessante mencionar que o benefício não é apenas por ser o parto natural a melhor forma de nascer para o bebê e para a mãe, o ganho é bem mais amplo, podendo ser desde a gostosa sensação de vitória que fica até no pós-parto até um insight poderoso, um enfrentamento de medos ou mesmo uma linda renovação da família. 

Você atende partos normais para mulheres que já tiveram uma cesárea, o chamado VBAC (Vaginal Birth After Cesarean)? No caso delas, o que muda? Qual o ganho que têm? 
Sim, muitos partos são VBAC e, nestes casos, é realmente impressionante o ganho como mulher. Parindo ela se reencontra com seu feminino, se enxerga cem todo seu potencial. Em uma sociedade que valoriza tanto o masculino, em que é preciso ser firme e competitiva no mercado de trabalho, de preferência escondendo a preocupação com a família e a sensibilidade, o parto representa na vida da mulher moderna um momento único em que o encontro com o feminino é permitido e vangloriado! A mulher que pari após uma cesariana experimenta uma transformação absurda, é como um processo de lapidação de diamante. Parindo seu filho lindamente ela vive um momento sublime, sente-se completamente saudável, não está operada e nem de cama, está disposta para exercer plenamente seu papel de mãe e mulher. 


Foto: Beatriz Takata

Como acontece o parto em casa? 
O caminho é percorrido junto, mas quem caminha é a mulher. A rede de proteção dela é a parteira. Estar com a mulher neste momento me permite perceber quando e como ela precisa de apoio, de uma palavra de confiança, de um truque ou outro. Nós, parteiras, temos um repertório que vai ficando cada vez mais rico, pois a cada parto aprendemos uma coisa nova, cada mulher é uma, cada bebê é um. Dois grandes valores que o parto domiciliar permite são intimidade e privacidade. Estamos vivendo na era da exposição, das redes sociais, da conectividade. Parto é desconexão! Para parir é preciso desligar, entrar em total intimidade com a gente mesma. O parto em casa é privativo porque a mulher se sente segura, em um ambiente que domina. Isso é extremamente favorável para um processo fisiológico como o parto. É como aquela pessoa que viaja e o intestino prende. Por que ela só consegue ir ao banheiro em casa? Por que seu corpo não gostou da mudança de ambiente? Por que, com ou sem dificuldades, todos preferem o banheiro de casa? Porque ali estamos à vontade, sem defesas, até mesmo sem trancas! Sentir que é a sua cama, que domina aquele espaço, que os cheiros são conhecidos, os sons, torna tudo mais natural na hora de parir. 

Como a parteira se posiciona neste cenário, dentro da casa, um território íntimo da família? 
Respeito profundamente o que está acontecendo, faço o possível para manter uma postura discreta, uma presença leve. Toco a mulher de forma delicada, cuido para que não se sinta observada e deixo o marido cada vez mais participativo. Aliás, esta é uma curiosidade! Quando me tornei parteira, como contei, queria pegar os bebês! No entanto, como a sabedoria de partos vem me ensinando, pegar o bebê é uma honra que muitas vezes não cabe à parteira e sim à família. Então, hoje, cada vez pego menos bebês! Convido o pai, o filho mais velho ou a própria mulher para segurar seu bebê que está chegando ao mundo. E, por incrível que pareça, observar isso acontecendo – a família recebendo seu novo membro – é ainda mais emocionante do que pegar bebês! 

É tudo planejado no parto em casa? 
É tudo planejado e tudo imprevisível. O que a mulher sonhou ou planejou foi no campo racional, mas, na hora de parir, quem manda é o instinto. Assim, já vivi casos engraçados, como de um pai que montou uma banheira gigantesca, que ocupava toda a sala do pequeno apartamento e exigiu horas de um sistema complexo para encher, com mangueira dando a volta por fora da janela. Mas, era o sonho da mulher! Era, pois, quando finalmente a piscina estava cheia e quentinha, ela entrou, ficou lá dentro uma única contratação e disse, firmemente: odiei isso! E saiu. Pariu na cama, feliz da vida! A mulher vai fazer o que sentir e o que vier. Fazemos uma lista de material, um planejamento, mas damos liberdade total, porque, na hora P, é a natureza que comanda. 

O que você diria à mulher que está grávida e quer parir? 
O caminho natural mais saudável para o bom parto é combater e entender seu medo, olhar para ele, falar com ele e demiti-lo. Fazendo isso, ela chega mais perto de ter um parto bacana, porque o medo é o maior fator de risco de um parto, fica tudo muito mais leve se ela conseguir ir sem esta bagagem para o parto. Percorrer o caminho de busca para parir sem medos, apenas com o medo bom do desconhecido, mas ficando fora da cultura do medo. Isso não é muito fácil pois, no Brasil, há uma grande aura de medo acerca do nascimento. Qualquer mulher conhece histórias trágicas de parto, e o atual sistema obstétrico dissemina riscos inexistentes como o do cordão umbilical enforcar a criança. Enquanto parteira e ativista, tenho o papel de propagar histórias verdadeiras de partos ótimos, cheios de sensações positivas. É o medo que nos leva ao hospital e nos faz crer que o parto é perigoso. Então é nesta crença que devemos fazer a primeira revisão, buscando conhecimento, nos libertando dos medos e nos empoderando do parto. 

A era da informação ajuda nesta busca? A mulher de hoje tem mais liberdade para parir do que você teve há quinze anos? 
Sim, porque as mulheres estão cansadas desta história de medo! Cada célula do nosso corpo é impregnada deste medo. Muitas vezes nem aconteceu nada na gravidez, mas a mulher vai para a faca convencida por uma possibilidade remota do que poderia acontecer um dia. O que é isso? É o medo operando. Este foi o meu caso. O medo que remete ao futuro. Não acreditamos em nosso corpo, não acreditamos que o bebê vai chegar no termo, que dará conta do parto. Mas, sem dúvida, hoje temos mais acesso à informação. Se a gestante consultar o "Dr. Google", por exemplo, e digitar "bebê enrolado no cordão" logo nos primeiros resultados vai descobrir que isso é uma balela, uma mentira, que não existe. Ela vai descobrir que há um grande movimento de resistência ao sistema atual, e que há, como eu, milhares de mulheres, parteiras, doulas, médicos e, sobretudo, mães, trabalhando, divulgando e dando tudo de si para que os partos aconteçam no Brasil de maneira digna, respeitosa, livre de medo e cheios de amor. 


Ana Cristina Duarte, obstetriz e parteira urbana, co-fundadora do Grupo de Apoio à Maternidade Ativa, É co-autora do livro "Parto Normal ou Cesárea? O que toda mulher deve saber (e homem também)".